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  • Claudia Vilas Boas

As marcas da vida

Existe um poema de Carlos Drummond de Andrade, do qual gosto muito, cujo título é: Casa Arrumada.

Vou iniciar esse texto, citando um trecho dessa obra, e desde já recomendo a leitura na íntegra.

Casa arrumada é assim:

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida…

A nossa casa é o reflexo da nossa história, da nossa vida.

Uma casa sempre impecável realmente parece apenas um cenário.

Já escrevi uma vez que espelhamos em nosso entorno o que trazemos dentro de nós. Uma casa bagunçada muitas vezes reflete nossa desorganização interna.

Contudo, isso não tem a ver com uma casa usada, que carrega em cada canto as marcas das histórias ali vividas.

No sofá algumas manchas da empolgação dos brindes comemorados, ou das lágrimas compartilhadas.

No piso os riscos dos passos da corrida rotina, das reuniões de família, das festas com amigos. Também os rastro das malas arrastadas, tanto das que retornaram como das que partiram de vez.

E na cozinha, local tão cheio de memórias, aquele fogão, no qual nem se identifica mais o nome da marca, apagado por tantas limpezas, após as mais variadas experiências gastronômicas. Desde o trivial arroz e feijão,aos coloridos respingos do molho apurando por horas, constrastando com o branco da espuma do leite, derramado num segundo de distração.

Se ficarmos em silêncio, poderemos até escutar os ecos.

Ecos das risadas, dos choros escondidos, das confidências, dos gritos, do cantarolar e do resmungar. Os ecos da nossa existência.

Existência essa, que com certeza não foi impecável e perfeita, mas real.

Real como a imagem que veremos no espelho com o passar dos anos, que também nos mostrará marcas.

Marcas de expressão que muitos tentam apagar, disfarçar, como algo vergonhoso.

Onde, na verdade, deveria ser vista a beleza de uma trajetória. Os sinais bordados pelo tempo, meticulosamente, a cada vivência, a cada luta vencida, seus aprendizados e superações.

O traçado de uma vida realmente vivida, esculpida nos mínimos detalhes, por cada um de nós, artesãos, poetas, enfim, artistas construindo um legado.

Então, vamos lá, pulem na cama, façam guerra de travesseiros, arrastem os móveis e cantem, dancem, mesmo que seja você o único convidado dessa festa.

Não tenhamos medo da bagunça, afinal, a alegria compensa e a vida te recompensa.

Como diz uma frase atribuída ao jornalista e escrior Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido por Barão de Itararé , "o que importa não é o que se leva da vida, mas a vida que se leva". E que ela seja...leve.

#pracegover #pratodosverem ilustração de uma garota, de cabelos castanhos, vestindo uma saia rodada marrom com detalhes em xadrez bege e marron, casaco bege, bota marrom, dançando em meio a um quarto. Do lado esquerdo há uma cama, com colcha e travesseiro, na parede ao lado dois quadros e um crucifixo. No lado direito uma escrivaninha, sobre ela uma bolsa e à sua frente uma banqueta. Ao fundo uma janela ladeada por cortinas brancas. Paredes em tons de azul.


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